PACTO TRIBAL

A esta altura, não é mais novidade, mas vale comentar a seguinte notícia:
"EUA INVESTIGAM 'PACTO DE GRAVIDEZ' EM ESCOLA
20/06 - 06:56 - BBC Brasil
Autoridades americanas estão investigando a hipótese de que um grupo de garotas adolescentes da mesma escola teria feito um "pacto" para engravidar ao mesmo tempo. - A suspeita foi levantada depois que testes confirmaram a gravidez de 17 adolescentes da Gloucester High School, em Gloucester, no Estado de Massachussetts. O número é quatro vezes mais alto que o registrado no ano anterior na escola.(...)" - *Veja a notícia completa em: http://ultimosegundo.ig.com.br/bbc/2008/06/20/eua_investigam_pacto_de_gravidez_em_escola_1376960.html
Era, ao que consta, uma cidade pacata, onde meninas se entediavam com a falta de emoções. Resolveram, então,
· talvez para dar um sentido às suas existências,
· talvez para compensar a família sempre frouxa ou ausente,
· talvez porque hoje em dia é muito fácil o sexo e descompromissado o relacionamento,
· talvez porque tivessem inventado uma seita macabra ao contrário, que ao invés de beber sangue, matar seres, engravida, pare, incha de leite as mamas,
· talvez porque fossem loucas,
· talvez porque fossem... talvez... talvez.
Resolveram engravidar. Aparentemente, arrumaram apenas uns meros machos reprodutores, provavelmente inúteis logo após o coito.
Respostas demorarão a vir.
O que se pode afirmar é que, num mundo sem perspectivas para a juventude, a gravidez tem sido, efetivamente - mais do que exclusivamente um descuido -, uma forma de muitas meninas conseguirem um protagonismo que, de outra forma, não alcançariam. De repente, a garota, que antes nada era, é MÃE. E mãe tem dia próprio e nobre, mãe tem reverências, mãe ganha poemas, mãe ganha flores, mãe é pra sempre, mãe só tem uma, mãe é mãe. Durabilidade, comprometimento, muitas vezes, buscam essas meninas, pela via da gravidez. Família, certamente, buscam.
Vi casos de meninas que, ausente a família presente, por omissão dos pais, eram tão solitárias que podiam ter se matado, enforcadas no chuveiro, que ninguém talvez notasse, podiam enfiar a cabeça no fogão e alguém só ia estranhar o perfume diferente do assado...
· “Nossa, como ela demora no banheiro”
· "Ah, ela é assim mesmo, vive o dia inteiro no computador...".
· "É da idade. Bom, que não me incomoda..."
Gente ausente fisicamente, gente ausente, acima de tudo, espiritualmente. Famílias amarradas num precário laço de fio de cabelo. Podia a filha virar uma kafkiana barata, que ninguém ia notar. Bastava a essas meninas estarem, corretamente maquiadas, com o alisamento siberiano em dia, com um sorriso falso (adolescentes, hoje, aprendem a sorrir como aeromoças de tempos antigos, profissionalmente, pra pais não encherem o saco, e posarem de "tudo bem"). E sorririam-tudo-bem-mãe com o teste de gravidez na bolsa, o coração aos pulos, ansiosas pra saírem "daquele inferno", que no entanto, pais omissos achavam um paraíso: "minha filha tem a cabeça boa". Como assim, pai, como assim mãe, "cabeça boa"!? Desde quando, adolescente tem "cabeça boa", assim, tão terminativamente, amigo? Adolescente é ser em formação.
O que você diz, “cabeça boa”, é como você ver um vulcão prestes à erupção e afirmar, sem notar a terra que fumega, não, aqui é “terra boa”, um solo tranqüilo, aqui, acamparemos, aqui, plantaremos nossas vinhas, criaremos nosso gado, pela eternidade. Essas ilusões à beira do vulcão matam, pais e mães. E, claro, essas ilusões, também, dão em gravidez...
E aí, você é que vai recomendar o aborto? Vai deixar ela enfiar um cabide, útero adentro? Vai levar na clínica? Vai se conformar em ser avó-mãe-da-neta? Vai expulsar a filha de casa?
Como diz Tânia Zagury, não tem solução boa pra gravidez precoce. Não tem. Pode-se até, da gravidez precoce obter um desafio que ponha uma vida nos eixos. Conheço casos. Há gente que só se movimenta rumo ao sol se for pra salvar a vida de alguém. Sem o filho, podiam seguir afundando na lama. Mas isso é exceção. De regra, teremos meninas brincando de bonecas, com bonecas que amanhã serão meninas, e parirão igualmente cedo pequenas bonecas, que virarão meninas que... num círculo vicioso, fabricante de tristezas.
E se abortarem... o trauma difícil, o peso de pedra, a culpa de chumbo, por mais que o discurso liberalizante (“a mulher tem direito ao próprio corpo”) ecoe. E se abortarem... pode também haver o embrutecimento, a culpa se converte em pessoa e a pessoa é que vira pedra, chumbo e frieza. Nessa trilha conheci garotas que se aproximaram da dezena de abortos!!! E não exibiam culpa, como se fosse um campeonato triste. Mas a culpa está lá, dormindo, dragão invisível, que explodirá em algum momento, detonando cérebro e sentimento.
As meninas americanas parecem aquelas que, desgostosas do mundo à sua volta, resolveram criar seu próprio mundo. Sua assustadora Utopia. Afinal, “criariam juntas” as filhas. Uma comunidade de sacerdotisas amazonas, sacrificando seu futuro e imolando o amanhã das crianças paridas num ritual de suicídio emocional.
Uma tribo. A ela pertencem muitas meninas. As que deixamos que achem que têm que “dar” pro garoto, porque as colegas já “deram”. As que são abusadas sexualmente por parentes, pais e padrastos. As que, quando conversamos sobre sexo, alertamos sobre o uso da camisinha, mas não falamos sobre os fundamentais amparos do coração. As que são ignoradas por pais e mães omissas, ocupados com seus próprios apetites de adultos, seus pequenos ciúmes, traições, separações, egoísmos. As que saem pra embriagar-se no fim de semana. As que acabam bebendo o vômito com que a mídia alimenta o modelo de mulher-objeto ou mulher-fruta ou mulher-canina, que seduz seguidoras, aí sim, caminhando como uma seita de hipnotizadas zumbis em busca da grife, da lipo, do silicone.
Aliás, esta é a grande contradição do movimento feminista. A luta pelo aborto, hoje, depois de terem tacitamente aceitado a condição de mulher-objeto. Sim, porque isto é o que está dado. Menina crescendo no criadouro da mídia quer ser modelo, manequim, atriz, mulher de pagodeiro, chuteira de jogador de futebol, mulher do “pitboy” rico que mora na Barra da Tijuca e pode ir pra Paris no fim de semana, assim, num estalo. Ah, fui comer uma pizza... Aonde? Em Paris... Idiota, fosse então pra Milão!!! Porque além de tudo, a cultura coisa-que-bóia, que é a cultura da Internet, um monte de pontinhos flutuando, sem que a gente veja a raiz, o submerso, o verdadeiro, o profundo, gera gente ágil, mas desinformada, com uma cultura wikisperta, porque o google está aí mesmo – com seus oráculos - não é?
E não nos esqueçamos dos garotos, esses pequenos reprodutores, estimulados a um cio precoce e constante, ávidos, mas, também coisificados, vivendo personagens, escondendo em suposta macheza a fragilidade, coisificados, convocados à tarefa do sexo sempre insatisfeito porque a ele comparece a fantasia manipulada e dele ausenta-se a alma.
É preciso acordar. O pacto silencioso não envolve só a gravidez precoce. O próprio sexo precoce, em si mesmo, é um mal a ser evitado, porque tem destruído emocionalmente tantos jovens, pela coisificação do outro, da qual muitas(os) não se recuperam. Relacionamentos tantas vezes maculados pelo padrão pornô de construir a intimidade, de se relacionar, que acaba criando modelos distorcidos de sexualidade.
É preciso acordar e resgatar para os jovens a hipótese da utopia honrada, do futuro viável, do sonho.
É preciso acordar e resgatar para as meninas a possibilidade da alternativa da dignidade, de não se aceitar coisa, animal, objeto ou fruta.
É preciso acordar e resgatar para os garotos “machezas” de outra ordem, a “macheza” (virilidade) reprodutora de esperanças, de boas lutas, de rebeldias sadias, não a reprodução do sexo mobilizado em apetites pré-fabricados pela mídia, pelo mercado, bois num curral de matadouro, fisgados pela kriptonita dos hormônios.
É preciso ver se a filha não se enforcou no chuveiro da suíte onde a sociedade a esqueceu, sorrindo, sorrindo, sorrindo, ali, aquela menina tão linda, sorrindo com seu sorriso de aeromoça, cabelo alisado, sorrindo com os dentes perfeitos, com sua cabeça tão boa, sorrindo, mas condenada.
É preciso dizer em voz alta: Melhor família que tribo. E família à vera, é colo e beliscão, abrigo lento e despertador às 06, chatice santa de limites vários, canja de galinha de carinhos, autoridade de voz e exemplo, beijo e abraço. Família. Coisa sagrada. Melhor que tribo.
Ainda há tempo.